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Sem água no chope: as perspectivas dos bares de cerveja artesanal para 2026

Cenário do mercado de cervejas premium em 2026

A notícia de que o diretor-presidente da Heineken deixará o cargo em maio reverberou, provavelmente, em todo o setor. Dolf van den Brink dará adeus ao posto em um momento no qual a cervejaria holandesa enfrenta desaquecimento da demanda e mudanças nas preferências dos consumidores. Ele se manteve por quase seis anos no comando da companhia, conhecida por ter ajudado a ampliar, agressivamente, o segmento das cervejas premium.

Estagnação das grandes marcas e mudança no perfil de consumo

Acontece que as vendas estão caindo, o que levou a Heineken a cortar suas projeções duas vezes no ano passado. Os consumidores, aparentemente, estão reduzindo os gastos com bebidas. De acordo com um relatório do banco Citi focado na companhia, o mercado premium de cerveja encontra-se em um momento de estagnação. É uma notícia ruim para a Heineken, mas também para a concorrência, a começar pela Ambev, dona de uma porção de marcas voltadas para esse segmento.
De acordo com o IBGE, a produção, em geral, de bebidas alcoólicas diminuiu 6,5% no Brasil em novembro de 2025 em comparação com o mesmo mês de 2024. As cervejarias, estima-se, representam 90% dos volumes produzidos por toda a indústria de bebidas para maiores de 18 anos.

Oportunidades para o setor de cervejas artesanais no Rio de Janeiro

Para Rafael Farrá, a dor de cabeça enfrentada por gigantes como Heineken e Ambev não chega a ser um problema — pelo contrário. “Para nós, esse fenômeno é bem positivo”, admite ele, sócio-fundador do Brewteco. Fundada em 2013, a rede de bares de cerveja artesanal está com oito unidades, todas no Rio de Janeiro. A mais recente encontra-se no Mercadinho São José, em Laranjeiras, reaberto no ano passado. O quiosque no Pão de Açúcar e a filial no Baixo Gávea figuram entre as mais disputadas.

Comportamento do consumidor e migração para marcas artesanais

“Quem deixa de consumir cerveja premium por causa do preço, tende a migrar para as artesanais”, acredita. “O paladar desse tipo de consumidor já está habituado a opções mais elaboradas. E o paladar não retrocede. Logo, a migração para marcas mainstream é muito improvável”. O empresário não tem dados para afirmar, categoricamente, que a suposta estagnação do mercado de cerveja premium lhe foi vantajosa. Mas isso não o impede de afirmar o seguinte: “Estamos pegando uma rebarba interessante desse fenômeno”.
Convém lembrar que o Brewteco é frequentado, principalmente, por consumidores com bom poder aquisitivo — os preços não são proibitivos, mas também não são baratos. “Para o bolso dos nossos clientes, de maneira geral, o aumento no preço das cervejas premium não faz tanta diferença”, acredita. A pilsen da casa custa R$ 20, a garrafa de 600 mililitros. Encontrar uma Heineken do mesmo tamanho pelo mesmo valor, convenhamos, não é tarefa fácil.

Expansão e produção própria: o caso Brewteco

 

“Somos uma porta de entrada para o mundo das artesanais”, diz o empresário. Em 2022, o Brewteco inaugurou sua fábrica, na Lapa. Ela produz, atualmente, quase 30 mil litros de cerveja por mês e a meta é ampliar o ritmo para 35 mil litros. É o suficiente, no entanto, para suprir só metade da demanda mensal da rede — os outros 50% são cobertos por cervejas de outras marcas, inclusive da grande indústria. Neste ano, o Brewteco pretende inaugurar uma filial em São Paulo.

Perspectivas para bares e restaurantes em ano de Copa do Mundo

A rede planeja se expandir em um ano repleto de boas perspectivas para o setor, apesar dos percalços enfrentados pelo segmento premium. Em 2026 teremos Copa do Mundo, número maior de feriados em relação ao ano passado e dias, provavelmente, mais quentes.
Confiante na expansão do segmento artesanal, a cervejaria Hocus Pocus está investindo para ampliar sua capacidade de produção para 300 mil litros por mês — hoje são 140 mil. “Estamos no limite”, declarou Vinícius Kfuri, um dos sócios da marca, justificando a ampliação na produção. “Sem dúvida [2026 será] um ano melhor”.
A Hocus Pocus foi criada por ele e Pedro Butelli. Os dois se conheceram num daqueles cursos que ensinam amadores a produzir a bebida, na época em que fazer cerveja em casa era moda. A fábrica da marca, em Três Rios, foi inaugurada em 2018. Bares são quatro. O de Botafogo abriu as portas em 2016. A filial paulistana, no Largo da Batata, foi inaugurada em 2022. E há um estande no shopping Uptown, na Barra da Tijuca, e um quiosque em Niterói.

Impacto das apostas esportivas no orçamento das famílias

Um dos desafios enfrentados pelo setor em geral é reflexo do advento dos sites de apostas esportivas. Estas, como se sabe, têm comprometido parte considerável do orçamento de uma fatia relevante da população. Em outras palavras, uma parte do dinheiro que antes era gasto em restaurantes e bares agora fica com os sites de apostas.
“Bilhões de reais estão sendo direcionados para as bets, o que tem levado muitas famílias a se endividarem e penalizado a economia do país como um todo”, diz Fernando Blower, que preside o Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio). “O país deveria olhar para isso com muita atenção, não com viés proibitivo, mas com o intuito de proteger a saúde da população”.
Farrá, do Brewteco, não sabe dizer se sua clientela diminuiu os gastos nas unidades da rede por culpa das bets. “Percebemos, porém, que alguns funcionários estão comprometendo boa parte da renda com apostas”, registra. Para tentar minorar o problema, a rede passou a oferecer cursos internos de orientação financeira.

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