
Ampla rejeição à proposta do governo federal foi constatada por pesquisa realizada pela Quaest em parceria com a Associação Nacional dos Restaurantes (ANR), coligada do SindRio
O avanço do delivery no setor de bares e restaurantes
De uns anos para cá, para muitos bares, restaurantes e lanchonetes do país, o delivery deixou de funcionar como um canal complementar para se consolidar como uma das principais fontes de receita. O movimento, acelerado pela pandemia, redesenhou a dinâmica do setor e elevou o protagonismo das plataformas digitais na relação entre estabelecimentos e consumidores.
Nesse contexto, as discussões em Brasília sobre a regulamentação dos aplicativos de entrega são motivo de preocupação. Em pauta, estão os direitos e deveres de empresas, usuários e trabalhadores — um debate que pode redefinir custos, margens e o próprio modelo de operação de boa parte do setor de alimentação fora do lar.
Proposta de taxa mínima por entrega: o que está em discussão
A proposta do governo federal, apresentada por Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, é a seguinte: criar uma taxa mínima de R$ 10 por entrega para pedidos em aplicativos como iFood, 99 e Keeta. E a ideia ainda prevê um adicional de R$ 2,50 por quilômetro para trajetos de mais de 4 quilômetros.
É de imaginar quais serão os impactos da medida, caso ela seja implantada. “Tende a aumentar os custos das plataformas, que, provavelmente, vão repassá-los para o setor de bares e restaurantes”, alerta Rafael Cardoso, diretor jurídico e de relações institucionais do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio) e consultor de relações institucionais da Associação Nacional de Restaurantes (ANR).
Impacto da taxa mínima nas classes C e D
A imposição da taxa mínima, convém acrescentar, poderá diminuir o interesse do consumidor final pelo delivery. “Com uma entrega mais cara, dificilmente alguém vai pedir, por exemplo, um sanduíche que custe R$ 10”, argumenta Cardoso. “Trata-se de uma medida, portanto, que vai penalizar, principalmente, as classes C e D”.
Uma pesquisa realizada pela Quaest em parceria com a ANR constatou que a proposta do governo federal é rejeitada pela maioria da população. De acordo com o levantamento, 71% dos brasileiros são contrários à taxa mínima por entrega em aplicativos de delivery.
Na visão de 78% dos respondentes, a mudança levaria a um aumento de preços nos pedidos de comida por aplicativo. E 86% disseram que a cobrança mínima afetaria, principalmente, os mais pobres. Na hipótese de serem obrigados a pagar mais pelas entregas, 71% dos entrevistados disseram que não fariam isso.
Nível de conhecimento da população sobre a proposta
O levantamento também constatou que 87% das pessoas estão cientes das discussões em Brasília sobre a regulamentação dos aplicativos de entrega e que 76% ouviram falar na proposta do governo de instaurar uma taxa mínima.
Por fim, a pesquisa da Quaest se debruçou sobre o posicionamento político dos respondentes. Entre os entrevistados que se posicionam à direita, 97% se disseram contrários à cobrança mínima por entrega. No campo da esquerda, 84% declararam apoio à proposta. No caso dos eleitores independentes, 83% manifestaram rejeição à medida. A pesquisa ouviu 1.031 pessoas, presencialmente, entre os dias 13 e 16 de março.
Riscos eleitorais na regulamentação dos aplicativos de delivery
Diretor da Quaest, Felipe Nunes alerta para os riscos da regulamentação dos entregadores ganhar contornos eleitorais. “Os dados obtidos pela pesquisa são especialmente relevantes em um contexto de eleições”, diz ele. “Chama atenção que mesmo entre os independentes, aqueles que não se vinculam a nenhum dos polos do espectro político, 83% são contrários à proposta do governo. A rejeição transcende as divisões partidárias e sinaliza que o tema pode ter implicações eleitorais significativas.”
A ANR defende que esse debate seja feito com mais profundidade. “A regulamentação dos entregadores é necessária e deve avançar com equilíbrio pensando em soluções que protejam os trabalhadores e a sustentabilidade do setor”, afirma Fernando Blower, presidente executivo da ANR e presidente do SindRio.
Ele vai além: “A própria pesquisa mostra que a população não apoia a proposta colocada, especialmente diante do potencial impacto nos preços. Medidas como a fixação de valores mínimos podem afetar os consumidores, sobretudo os mais vulneráveis, e pressionar a operação de bares e restaurantes, em especial os de pequeno porte, que dependem do delivery”.
Fundada em 1990, a ANR atua na promoção do setor de alimentação fora do lar e na defesa dos interesses de seus associados. A entidade articula o relacionamento com o poder público, fornecedores e instituições, além de incentivar o desenvolvimento técnico, econômico e a qualificação da gestão no segmento.
Dimensão do setor de bares e restaurantes no Brasil
Com uma base de associados que representam mais de 12 mil pontos de venda, a ANR reúne desde grandes redes com atuação global até pequenos negócios. O setor que ela representa soma cerca de 700 mil estabelecimentos, emprega aproximadamente 1,5 milhão de pessoas e movimenta cerca de R$ 250 bilhões por ano.



